História

Rede FunBioS: a ciência que nasce no Centro-Oeste para revelar o futuro dos fungos no Brasil
Quando a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) lançou, em 2023, o Edital nº 20/2023 voltado à criação de redes de pesquisa e desenvolvimento na Região Centro-Oeste, o objetivo era ambicioso: reduzir assimetrias regionais, fortalecer a pós-graduação e impulsionar áreas estratégicas como bioeconomia, biotecnologia e biodiversidade. Foi nesse contexto que começou a tomar forma uma iniciativa que hoje se apresenta como uma das mais promissoras frentes de investigação científica da região: a Rede FunBioS.
O nome completo já revela a vocação do projeto — “O futuro dos fungos de biomas da região Centro-Oeste: Sustentabilidade e Oportunidades” — e traduz uma aposta estratégica na ciência aplicada à biodiversidade. Oficialmente denominada Rede de Pesquisa e Desenvolvimento da Região Centro-Oeste (Rede FunBioS), a iniciativa reúne pesquisadores de diferentes instituições brasileiras e estrangeiras em torno de um tema ainda pouco explorado no país: a diversidade de fungos nos biomas do Cerrado e do Pantanal.
Embora os fungos façam parte do cotidiano — seja no pão, nos medicamentos ou nas infecções mais comuns —, o reino Fungi permanece, em grande medida, um território científico desconhecido. Estimativas internacionais indicam que existam cerca de 3,8 milhões de espécies de fungos no planeta, mas apenas 10% foram descritas até hoje. No Brasil, País grande e diverso, a lacuna é ainda mais expressiva, sobretudo no Centro-Oeste. Foi essa combinação de potencial científico, urgência ambiental e oportunidade institucional que impulsionou a criação da Rede FunBioS.
O marco zero de uma rede científica
O primeiro ato público da Rede ocorreu em agosto de 2024, quando a Capes convidou os coordenadores e representantes das fundações de amparo à pesquisa para o Seminário Marco Zero do programa, realizado em Brasília. O encontro marcou oficialmente o início dos projetos aprovados no edital e estabeleceu as bases operacionais da rede.
Na ocasião, a Capes destacou que o programa tinha como finalidade apoiar projetos de formação de recursos humanos e inovação sustentável, articulando programas de pós-graduação stricto sensu, pró-reitorias e fundações estaduais de apoio à pesquisa. A Rede FunBioS foi uma das iniciativas contempladas, com financiamento robusto, dezenas de bolsas de doutorado, pós-doutorado e professor visitante, além de recursos para infraestrutura, expedições científicas e análises laboratoriais de alta complexidade.
A proposta foi apresentada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (FAPEG), em parceria com universidades da região e com uma extensa rede de colaboradores nacionais e internacionais. Desde o início, a concepção foi clara: criar uma rede cooperativa capaz de produzir conhecimento de excelência sobre fungos, formar especialistas e transformar biodiversidade em inovação.
Uma rede que atravessa fronteiras
A Rede FunBioS nasceu através da união de várias instituições. No núcleo nacional, participam pesquisadores da Universidade Federal de Goiás (UFG), Universidade de Brasília (UnB), Universidade Federal de Jataí (UFJ), Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS) e Universidade Evangélica de Goiás (UniEVANGÉLICA). A essas instituições se somam grupos consolidados da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).
No plano internacional, a rede conecta o Centro-Oeste brasileiro a centros de excelência em micologia na Europa, América do Norte e Ásia. Entre os parceiros estão a University of Nottingham, a Universidade do Minho, a University of Wisconsin, o Albert Einstein College of Medicine, o Westerdijk Fungal Biodiversity Institute, a University of Innsbruck e a Beijing Forestry University.
Essa arquitetura colaborativa não é casual. O estudo de fungos exige competências altamente especializadas — da taxonomia clássica à genômica, da bioprospecção química à modelagem molecular. Ao reunir diferentes expertises, a Rede FunBioS constrói uma plataforma científica capaz de investigar, em profundidade, organismos que desempenham papéis decisivos nos ecossistemas e na saúde humana.
Cerrado e Pantanal no centro da ciência
O foco territorial da rede é estratégico. O Cerrado e o Pantanal figuram entre os biomas mais importantes e ameaçados do planeta. O Cerrado, é uma das áreas de altíssima riqueza biológica que é considerado um hotspot global de biodiversidade, ocupa quase um quarto do território brasileiro e abriga milhares de espécies endêmicas (exclusivas). O Pantanal, maior área alagável contínua do mundo, desempenha papel crucial no equilíbrio climático e hidrológico da América do Sul.
Apesar dessa riqueza, ambos permanecem pouco estudados do ponto de vista microbiológico. Os dados disponíveis indicam que apenas algumas centenas de espécies de fungos foram registradas nesses biomas — um número considerado extremamente baixo -, diante da diversidade potencial.
A proposta da Rede FunBioS é justamente preencher essa lacuna. As equipes realizam coletas em corpos d’água, fontes termais, cavernas e plantas nativas, isolando fungos endofíticos, ambientais e patogênicos. O objetivo não é apenas catalogar espécies, mas compreender seus papéis ecológicos, seus riscos sanitários e, sobretudo, seu potencial biotecnológico.
Entre a conservação e a inovação
A história da Rede FunBioS é também a história de uma aposta na ciência como motor de desenvolvimento sustentável. Os fungos estão entre os principais produtores de metabólitos secundários — moléculas que deram origem a antibióticos, imunossupressores, antifúngicos e compostos agrícolas. Ao mesmo tempo, alterações ambientais podem favorecer o surgimento de fungos patogênicos resistentes, com impactos diretos na saúde pública.
Ao investigar essa diversidade invisível, a rede atua em duas frentes complementares: conservação da biodiversidade e inovação tecnológica. Os dados gerados alimentam políticas de manejo ambiental, ajudam a monitorar impactos da degradação e abrem caminho para a descoberta de novos bioinsumos, fármacos e processos industriais.
Não por acaso, o projeto foi enquadrado no eixo estratégico da Biodiversidade, com forte interface com bioeconomia e biotecnologia.
Formação de pessoas, construção de futuro
Desde sua concepção, a Rede FunBioS assumiu como prioridade a formação de recursos humanos. O projeto prevê dezenas de bolsas de doutorado, pós-doutorado e professor visitante, além da oferta de disciplinas em inglês e da intensificação de intercâmbios internacionais.
A expectativa é que essa circulação de pesquisadores e estudantes fortaleça os programas de pós-graduação do Centro-Oeste, eleve a produção científica regional e consolide uma geração de especialistas em micologia de padrão internacional.
Mais do que um projeto pontual, a Rede FunBioS nasce com vocação de legado.
Uma história em construção
Ainda em seus primeiros passos, a Rede FunBioS já se apresenta como um dos mais ambiciosos empreendimentos científicos da região. Ao articular instituições, atravessar fronteiras e lançar luz sobre um dos reinos menos conhecidos da natureza, a iniciativa coloca o Centro-Oeste no centro de um debate global sobre biodiversidade, saúde e sustentabilidade.
Em um cenário marcado por mudanças climáticas, perda de habitats e novos desafios sanitários, compreender os fungos deixou de ser curiosidade acadêmica. Tornou-se uma necessidade estratégica. É justamente dessa urgência que nasce a breve, mas promissora, história da Rede FunBioS — uma rede que aposta no invisível para construir o futuro.